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No orkut dos malandros
     
 


Passou da hora de falar a verdade: gente, o orkut não é território livre. O procurador que resolveu detonar as comunidades que fazem apologia a temas racistas, pedófilos e adictos merece um milhão de elogios. Atitude de quem tem consciência do seu papel social e da geração de pervertidos que está sendo criada via orkut. Palmas e mais palmas para ele!

Achar que só por que o que você diz não está no mundo concreto e palpável não é real, sinceramente, ou é estupidez ou ingenuidade ou caráter deplorável. No caso das comunidades combatidas, a terceira opção é, de forma disparada, a mais convincente. O mundo virtual (blogs, mails, orkut, MSN) são mera extensão do real, desse papel de jornal que você está pegando agora. . Existe um servidor que registra tudo, armazena tudo e, no caso de qualquer problema, alguém pode e deve ser responsabilizado por todo deslize. É assim que as coisas funcionam.

Se você tem um perfil fake (os falsos do orkut, que não têm uma pessoa que assume o que determinado profile diz), saiba que basta um mínimo de inteligência e conhecimento técnico para chegar à sua identidade real. Confesso meu completo analfabetismo em questões intrínsecas ao funcionamento de hardware e softwares em geral, mas, conversando com amigos que entendem do assunto, me disseram que o IP (espécie de RG único e exclusivo de cada computador) é fácil de rastrear. Se não for pelo IP (no caso do cara acessar por meio de lan houses, escolas, bibliotecas, trabalho e computadores de uso coletivo afins), dá para seguir quem convidou quem a entrar no site de relacionamentos e chegar ao convite que originou o fake em questão. Mais fácil que tirar doce de criança. Mole, mole...

Comunidades como as que pululam no orkut são de um péssimo gosto e, além disso, se caracterizam como crime. Envolvem temas que causam repugnância a qualquer ser humano com um pingo de decência e vergonha na cara. Não dá para aceitar como se fosse normal só porque faz parte da internet, pois verdadeiramente não é. As penas têm que ser rígidas, duras e severas, como bem diz nosso Código Penal para crimes como os tais.

E se você, pai e mãe, não quiser que seu filho seja um crápula ou caia nas mãos de um (não sei qual das duas alternativas é pior), trate de aprender a mexer no orkut. Vá por mim, é dez mil vezes mais fácil que dirigir um carro. Pois só a vigilância contínua dos pais (quais comunidades o filho está inscrito, quem são seus amigos virtuais, o que ele diz nas comunidades, quem manda scraps para ele...) garantirá algum mínimo de caráter virtual à criança, pré-adolescente ou jovem.

Se você não quiser se esforçar tanto, pai e mãe e relapso, fique tranqüilo! Quem sabe ele não entra para a comunidade “Nós amamos a Suzane Richthofen” e segue os passos da garota que ele idolatra. Não seria uma boa?



- Postado por: Santista às 11h47 AM
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Cadeira elétrica para Suzane Richthofen
     
 


O crime é um mistério social. Existem tantas teorias para justificar a ação do criminoso que fica difícil descobrir um antídoto certeiro para combater a maldade antes que aconteça.

Mas ninguém questiona a necessidade de punir. O Estado inventou a cadeia para substituir o olho por olho, dente por dente. Passamos séculos até chegar no estágio atual. Sabemos, com certeza, que as penas também estão falidas, mas resta este único alento: ela nos separa dos monstros, assassinos, psicopatas e doentes mentais que eventualmente provocam lesões sociais gravosas como assassinatos e seqüestros.

A aparição de Suzane von Richthofen, assassina de pai e mãe, nas páginas da Veja e programa Fantástico sinaliza para uma situação de decadência humana e moral. Precisamos repensar: seria a pena de morte viável para nos afastar de criminosos irrecuperáveis?

A queridinha da classe média alta paulistana, a garota de posses e muito carinho, que tem tudo do bom e melhor, mata e ainda finge com sorrisos – como se fosse um judas diabólico, um satã em roupa de debilóide, uma mulher travestida de retardada. A cara de anjo e a utilização de estampas de Minnie e toda a patotinha da Disney revelam um lado sombrio dessa assassina insana: o marketing do crime. Suzane é adepta dessa estética. Quer dar a idéia de que passou a ser vítima da história. Que, de repente, num piscar de olhos, é a coitadinha.

A assassina megera se infantiliza para poder comover os jurados que assistem tevê. Por isso seu crime transcende o tribunal do júri e chega aos picadeiros da Rede Globo. Sua estupidez nas duas entrevistas para grandes órgãos de imprensa é a demonstração patética de que merece mofar na cadeia, ser comida pelos fungos e digerida pelas saprófitas.

Não se trata de desequilibrada, que merece medida de segurança e acompanhamento psiquiátrico. Permanece o relatório do inquérito policial.

Suzane é um ser perigoso, medonho, violento e anormal – uma aberração da humanidade que deve ser abortada do mundo. Ela não rouba nem mata por que precisa. Ao contrário: comete atrocidades pelo egoísmo que traz dentro do peito. É um ser canibal que não suporta a insatisfação.

Em nome de dois maconheiros assassinos, teve a capacidade de abrir as portas de sua casa e assistir a um duplo homicídio qualificado das duas pessoas que mais amava.

O Estado precisa repensar o tratamento destinado a determinados criminosos. O Direito Penal brasileiro não tem poder de decidir quanto à aplicação da pena de morte, mas cabe ao Congresso avaliar com cuidado as propostas apresentadas nos últimos 20 anos pelos deputados mais conservadores.

Personagens do porte de Suzane não podem se recuperar. E custam caro para os cofres públicos. Assassinos sem piedade, traficantes de grande porte, torturadores, políticos corruptos e uma pe-quena parcela de seqüestradores merecem cadeia elétrica por questão de mínimo esforço social. O princípio da dignidade da pessoa humana deve ser avaliado sob a ótica do Estado, que precisa reprimir o crime, gastar com seriedade nossa receita e tornar eficaz a segurança pública. Não é possível oferecer dignidade para o criminoso e marretadas para as verdadeiras vítimas. Cadeira elétrica para Suzane, já!

     


 




- Postado por: Santista às 08h39 AM
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Felicidade alheia
     
 


É impressionante como as pessoas não suportam a felicidade alheia. Nos últimos dias, uma avalanche de textos foi escrita criticando o carnaval, como se ele fosse o culpado por todas as mazelas do País. Violência, estupros, prostituição e até mesmo o baixo desempenho da economia brasileira são os resultados da folia de fevereiro. Pelo amor de Deus!

É indiscutível que a festa é uma das poucas alegrias que o sofrido povo brasileiro tem. Nestes quatro dias, é possível esquecer o aluguel vencido que ele tem que pagar, os sapos que tem que agüentar no emprego para garantir seu mísero salário, entre outras coias que tem que enfrentar. Para grande maioria da população, o carnaval é isso, uma época em que os foliões se vêem libertos de todas as formas de controle e repressão, sejam elas por parte da sociedade, da família e, principalmente, das igrejas, cada vez mais repressoras com seus falsos moralismos. Em suma, é quando eles podem simplesmente ser o que são, fazer o que querem quando bem entenderem. Talvez por isso incomode tanta gente, que, quem sabe por medo, não tenha coragem de curti-lo.

Outra coisa propagada nestes dias é que o carnaval não é expressão popular coisíssima nenhuma. Como não? Apesar de não entender muito do assunto, creio que se não a maior, é uma das maiores expressões culturais populares. E não estou falando dos desfiles da Marquês de Sapucaí. O carnaval é muito mais do que isso. Em uma época em que a padronização da produção cultural está mais latente do que nunca; no carnaval, a variedade se destaca. A folia do Rio, com o samba, é diferente da realizado no Recife, onde a população cai no frevo, que por sua vez não é parecido com a da Bahia. Isso sem contar com o resto do País, principalmente nas cidades do interior, onde em alguns lugares ainda se preservam os bailes com suas marchinhas e fantasias típicas. Se isso não for cultura, o que é?


- Postado por: Santista às 11h56 AM
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Abaixo a Bruna Surfistinha
    
 


O Brasil já experimentou a geração Coca-Cola, eternizada por um clássico de Renato Russo. Num passado não muito distante, esteve em voga a geração tribalista, nomeada assim pela música Já sei namorar, dos Tribalistas. Agora resta saber qual banda se arriscará a deixar na história o fenômeno que o território verde-amarelo começa a experimentar: a geração surfistinha.

Graças à ex-dondoca, ex-prostituta, atual escritora e candidata a milionária Raquel Pacheco – codinome Bruna Surfistinha –, a profissão mais antiga do mundo caminha para ganhar ares de status, realização sexual, fama, dinheiro, e, o pior, liberdade.

No seu conto de fadas às avessas, a princesa fugiu do castelo para se livrar da bruxa má – no caso, os pais. Mergulhou no mundo das drogas. Teve um puta trabalho – literalmente – para conseguir sobreviver longe das asas da família. Até, é claro, encontrar o príncipe encantado, João Paulo Moraes. Mas antes dele esteve com outros 1,2 mil sapos.

Tirou o véu que encobria os bastidores da prostituição em um blog na internet. Depois transformou suas peripécias sexuais num livro. Tudo bem. Nenhuma novidade até aí. Até porque as rainhas do pornô americano, Jenna Jameson, Christy Canyon e Traci Lords, já haviam feito suas biografias sexuais. E também são best-seller, a exemplo de O doce veneno do escorpião, de Bruna Surfistinha. O problema é que a história bem-sucedida da ex-profissional do sexo encontra terreno fértil no Brasil. Aliada a uma geração que vive relações superficiais, quase sempre epidérmicas, onde jovens têm sexo, mas não encontram amor, a projeção nacional que Bruna tomou pode fazer com que a prostituição de luxo entre garotas de classe média se torne uma epidemia.

Em Christiane F., drogada e prostituída, de Kai Hermann e Horst Rieck, sucesso dos anos 80; ou no mais atual Cem Escovadas Antes de Ir para a Cama, de Melissa Panarello, as histórias não têm finais felizes. Christiane Vera Felscherinow, ou Christiane F, por sinal, ainda hoje não se livrou da guerra particular que trava desde 1975. Daí a particularidade de Bruna Surfistinha. A jovem brasileira tem um desfecho para lá de feliz depois da vida no submundo. Não que o final trágico fosse o que ela merecesse por ter sido prostituta. Não é nada disso. Que bom que, embora sejam casos raros, algumas pessoas como ela encontram finais felizes. Muito menos por preconceito. O mau é que isso esteja servindo como espelho. Ser prostituta por vaidade, ambição, luxo ou influência da mídia é muito preocupante.

A geração surfistinha é uma mostra clara da perda de valores familiares. Além disso, é uma dose nítida das mudanças culturais que o mundo experimenta e da influência do tal capitalismo selvagem. Até o fim da geração Coca-Cola, a prostituição era sinônimo de infelicidade, um mau imposto às vítimas do apartheid social. Hoje, aparece travestida de glamour. As mulheres que antes se prostituíam para alimentar aos filhos ou por serem escravas de entorpecentes agora se vendem para vestir Dior, Prada, Diesel, Maison Saad. Para morar em apartamentos de luxo, fazer compras na Oscar Freire, freqüentar lugares badalados e correr o mundo em muitas, muitas viagens.

Para garantir salários de executivos – podem chegar a R$ 20 mil por mês –, também estão na faculdade. Pelo menos isso é um bom sinal. Independente da utilidade prática que dão ou não ao conhecimento adquirido, enriquecimento intelectual não faz mau a ninguém. A prostituição começa a trilhar um caminho para aparecer como qualquer outra escolha profissional. O crescimento de 70% no número de adolescentes de classe média que se prostituem nos Estados Unidos comprova isso. Imagine sua filha estudando para ser prostituta de luxo ao invés de médica ou advogada. É, sem dúvida, uma quebra de paradigma. E isso, além de preocupar, assusta.

Pela legalização da profissão sempre. É preciso que prostitutas tenham direitos constitucionais garantidos aos trabalhadores. Mas contra a banalização e a apologia à prostituição. E é isso o que o fenômeno Bruna Surfistinha faz.


- Postado por: Santista às 09h02 AM
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Universal: a multinacional da fé
    
 


Tudo bem. Se vou arder no caldeirão fervente do “coisa ruim” depois de ter blasfemado contra a pseudo-santidade, o Papa Bento XVI (edição do DM do dia 6), não vou so-zinha. Bato o pé na hora do julgamento final. Que o “filho de chocadeira” – como eternizou Mateus Nachtergaele no Auto da Compadecida – reforce o estoque de tridentes, de palitos de fósforo, querosene ou o que mais o espírito das trevas usar para deixar a chapa quente.

O “diretor” da multinacional da fé, cujo nome fantasia é Universal do Reino de Deus, o tal Edir Macedo, será uma das almas torradas pelo fogo do inferno. E não faltarão argumentos para que o diabo atenda ao meu pedido e não deixe impune a sua passagem pelo submundo. Em 29 anos, a retórica triunfalista da Universal apresenta como mensagem o excomungado (pelos servos, claro) desapego material. Isso lhe garantiu expansão exponencial em território verde-amarelo, na África e nos EUA. Além de lucro anual maior do que o da Coca-Cola. O ba-lanço contábil da igreja é a prova concreta do poder da fé.

E olha que o ex-católico e ex-umbandista Edir Macedo nem precisou descobrir – inventar – uma fórmula tão secreta quanto a da Coca-Cola. O método é bem mais simples. Parte da premissa apregoada inicialmente pela Igreja Católica de que o desapego material é o principal caminho para a redenção. Fé, então, torna-se sinônimo de sacríficio. Mas vamos lá. Vale tudo em nome de Deus, ou melhor, de pecadores que se acham aptos a falar em nome Dele. A oferenda (obrigatória, é claro. Regularmente todo mês 10% do salário dos fiéis tem destino – in – certo) é algo material – para a igreja, como é evidente – mas que, com certeza, faltará para o crente.

Feito o sacrifício através do dinheiro, estabelece-se uma relação de troca: eu dou a Deus – por meio da igreja –, que me retribui com o que eu desejo: bem-estar, sucesso pessoal e muita riqueza. Ah! Mas na cláusula minúscula do “contrato espiritual” consta que se isso não acontecer é porque eu continuo pecando ou porque não tenho tanta fé assim. E, enquanto eu não exercito minha fé, os representantes de Deus na terra ficam incumbidos de fazer dinheiro do dízimo se multiplicar – para eles.

A grife Lar Evangélico (com mais de 1,2 mil produtos que têm nas embalagens selos para ser recortados pelos fiéis e depois levados às igrejas, para que metade do lucro líquido obtido com os royalties do licenciamento da marca seja repassado para as mesmas. O volume de royalties dependerá da quantidade de selos que cada igreja arrecadar) torna-se a prova concreta de que, com fé, a gente vai longe. Com o “empurrãozinho” nítido do poder de persuasão dos pastores e bispos que lhe “conduzirão” ao paraíso.

E não é só esta a inovação. A Universal do Reino de Deus vai além quando o assunto é negócio. O grupo empresarial tem produtoras, gráficas, gravadoras, jornais, editoras, emissoras de rádio e redes de televisão. Para enriquecer o ciclo financeiro, os fiéis agora podem contar também com um serviço de microcrédito popular. É o engatinhar do futuro Banco Universal: juros baixos e crédito fácil. É verdade; se for levado em conta o patrimônio da igreja, a fé não só move montanhas, enriquece também. E, como atestou Edir Macedo no documentário comemorativo do 20° aniversário da igreja, tudo graças à providência divina.

“Atribuo à ação do Espírito Santo o crescimento da igreja. Não se trata de marketing bem feito, boa administração, nem qualquer razão humana. É ação do Espírito Santo mesmo”. Mas quem sabe o tal “espírito” esteja providenciando de um lado e o “coisa ruim” de outro. Se cuida, Macedo, porque a chapa pode já estar esquentando. E só a sua. Pois, com tanta ingenuidade, o lugar dos milhares de fiéis no céu ou no purgatório já deve estar garantido.


- Postado por: Santista às 01h14 PM
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Fala sério!
    
 


Palavras da moda às vezes soam bem; outras vezes, irritam. Lembram-se do tempo em que os moços respondiam afirmativamente com uma palavra ainda menor que sim?

- Só.

O sim, hoje, pede palavras maiores: pode ser “pior” ou “isso”. “Pior” é coisa de maconheiro preguiçoso, que não quer falar muito; é o sucessor do jovem de outros tempos, o que dizia “só” e “podes crer” - que também valia por “sim”. Menininhas metidas a moderninhas, nos dias de hoje, preferem dizer “isso” - e isso me lembra platéia de programa de auditório na tevê, aos domingos.

Estar triste ou deprimido, na minha mocidade, era “estar na fossa”, e gostar de alguma coisa, “um barato” - hoje, diz-se “tô curtindo”. Também naquele tempo, ser “cheio de ginga” já havia sido “cheio de bossa” ou de “malemolência”; ou de “chinfra”. Aos mais velhos, chamávamos “coroa”, e isso valia também para a mulher na idade que, muito antes, era “balzaquiana”. Moça bonita era broto; rapaz bonito, “um pão” - esta caiu em desuso quando alguém definiu o “pão” como “casca grossa, miolo mole, fácil de ser embrulhado e só presta se for fresco”.

Ah, e os gestos? A mocidade de trinta anos atrás simbolizava um xingamento tocando o polegar com o indicador, num círculo com os outros três dedos esticados; hoje, estica-se o dedo médio; curiosamente, os dedos formando um círculo, lá nas terras do tio-sam, significam “tudo bem”; aí, a juventude que se seguiu adotou o dedo médio em riste para dizer o que dizíamos com o anel formado pelo polegar e o indicador. O que nenhum desses aí sabem é que ambos os símbolos eram fartamente usados pelos antigos romanos, e ambos os gestos significavam a mesma coisa: mandar o sujeito “para aquele lugar” - e havia, ainda, um terceiro gesto, que também ainda é usado, mas que não tem (hoje) o caráter obsceno de outrora: trata-se de cruzar os dois braços no que dizemos ser “uma banana” - e a banana, é claro, é um expressivo símbolo fálico, tanto que é usada para ensinar meninos pré-adolescentes a vestir um preservativo.

Há bem poucos anos, a pessoa conversava dizendo “me telefona” gesticulando: os três dedos do meio fechados, o mindinho e o polegar esticados, mão junto à cabeça... Ridículo! Vejam o quanto se abusa, atualmente, da expressão “hoje-em-dia”, mesmo que não cabe na frase. Feito o já obsoleto “a nível de”, preferido por dez entre dez políticos, professores universitários, entrevistadores e apresentadores de rádio e tevê. Essas pessoas, agora, gostam de falar “enquanto” mesmo quando a condição é permanente: “Eu, enquanto ser humano...” (juro: dá-me uma tremenda vontade de perguntar: “E será ser humano até quando?”).

Irritam-me, muito, os que contestam alguém dizendo “me poupe”. Meus hormônios de tensão e de briga entram em ebulição. E não compro - jamais comprarei - disco de cantor que se dirige ao público aos gritos de “Aí, galeeeeraaaa!”. Para mim, galera é um navio antigo. Ah, e tem também o chatíssimo “d’xeu te falar”. Fala logo, siô. Ou siá, porque as meninas são as que mais usam essa falinha chata. Ah, também me dá nos nervos ouvir o vocativo “todos e todas”. Politicamente correto, não: chato mesmo!

E aí, faço coro com a meninada:

- Chega! Ninguém merece...


- Postado por: Santista às 10h21 AM
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A Esperança brigou com o Entusiasmo
    
 


Atônita, ao olhar para seu relógio, Esperança já podia sentir aquela sensação de recomeço. Recomeçar o ano... as metas... a sonhar. E ao ouvir o quase ensurdecedor barulho dos fogos de artifício, também pôde sentir aquele friozinho na barriga. Medo? Talvez medo do estresse, de não conseguir, quem sabe do próprio recomeço.

O fato é que Esperança havia há muito tempo brigado com o Entusiasmo e até mesmo esquecido que, por definição,enthousiasmós significa: inspiração divina; a força que vem de dentro, que nos leva a realizar o que antes parecia impossível; uma paixão viva; alegria ruidosa. O que ela parecia não sentir mais.

Justo ela, tão querida e admirada no trabalho, em casa, uma “super” em tudo – mãe, esposa, profissional...

Mas havia um porém – esqueceu-se de si mesma. Perdida na busca pelo sucesso, que erroneamente na sua mente é o mesmo que dinheiro, matéria, status. E, nessa busca frenética, perdeu-se na ilusão de que sem isso a vida seria mais dura, mais triste, até mesmo insana. Esperança tem tudo, mas não tem nada. Sempre a querer mais, vive de ansiedade, na ilusão de que na próxima conquista conseguirá tempo para si, para celebrar, para curtir. Esperança está seriamente doente... mas não se dá conta.

Esperança sofre de um mal comum na sociedade moderna – entusiasmar-se pelas coisas erradas.

Mas como a noite era mágica e especial bem ao seu lado, na sala de estar, encontrou um livro desses pequenininhos que nos motivam a pelo menos dar uma rápida olhada.

Assim, Esperança entendeu o porquê nunca deveria brigar com o entusiasmo.

Foi Carlos Drumond de Andrade quem a ajudou nesta árdua tarefa, quando ela leu e refletiu sobre o texto abaixo.

“Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para frente tudo vai ser diferente”.

Esperança finalmente aprendeu que a esperança é um componente do nosso próprio ser, que não pode ser um comportamento passivo, mas que está voltada para a ação. É uma virtude, uma força que nos anima. É quem nos leva a acreditar num futuro melhor.

– Sim –, ela pensou: tudo pode ser diferente! Essa deve ser minha maior diretriz para 2006.

Não brigue com o Entusiasmo porque ele é intransferível; é aquele que dá sentido para a sua vida!

E não seja diferente somente no trabalho ou na condução de sua carreira, vá ainda mais fundo e seja um SER HUMANO DiFerENtE.

É disso que a sociedade precisa! A sua missão não é mudar o mundo, mas a si mesmo.

Em 2006, tenha entusiasmo pelas coisas certas e pelos motivos certos!

Comece o ano de bem com a vida, consigo mesmo!

Começar o ano com a esperança renovada pode ser o seu maior presente de ano-novo.


- Postado por: Santista às 09h45 AM
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Diálogo em tempos de crise
    
 


A consciência da própria ignorância – e a busca da verdade – nos faz humanos: é quando reconhecemos a possibilidade da verdade no outro e podemos convidá-lo ao diálogo. Essa opção pela conversação – além de permitir o intercâmbio de informações e pensamentos – nos permite praticar o respeito ao interlocutor: a validade que atribuímos às nossas idéias devemos reconhecer nas opiniões dos demais. A partir desta escolha iniciamos o processo de cooperação e trabalho para a construção dos significados comuns – que fluem entre as pessoas e aglutinam os vínculos humanos.

Vivemos em escala global talvez a pior crise da história da humanidade – provocada pelo crescimento da violência de todos os matizes, envolvendo inúmeras famílias (e atingindo especialmente a mulher), alastrando pelas ruas das cidades e contaminando as nações – que abusam da força e provocam guerras intermináveis. Sabemos que toda crise traduz uma carência de autoridade, em todos os sentidos do termo. A crise é uma situação de contradições e rupturas, plena de tensões e desacordos – e faz com que as pessoas e as sociedades tenham dúvidas acerca das atitudes que devem exercer. A busca das soluções para as crises implica no tempo: descansa sobre uma comparação entre o presente e o passado, na qual o presente toma o aspecto de aflição e o porvir de uma angústia – porque o passado se perdeu e desconhecemos o futuro. Nesses momentos avulta a importância do conjunto de emoções que acompanham a evolução dos períodos de crise, da dimensão existencial que se expressa nos comportamentos coletivos e está presente no diálogo, condicionando o seu desenvolvimento.

O desafio que emerge na superfície das ações para a superação da crise da violência e a promoção da paz no nosso dia a dia é compreender o diálogo como um valioso exercício de criação e transformação – através do qual poderemos elaborar novos significados, integrar expectativas diferentes e também contraditórias. O diálogo não está submetido à porção da verdade de cada um e não será o resultado de uma opção individual: decorrerá de uma construção conjunta. O processo de construção e manutenção da paz nas comunidades será a expressão de um significado compartilhado – especialmente se nos lembrarmos que, quando este significado se dilui, temos uma sociedade vazia de sentido: as instituições se tornam órfãs e a violência eclode como mecanismo privilegiado para a realização da vontade individual ou coletiva.

O século XXI assinala o surgimento das redes complexas de interesses em conflito. Assim, o desafio não está em evitar o conflito, mas em sua transformação – e o diálogo deverá ser o processo para gerar consensos fundamentais e fortalecer as perspectivas de convivência, como estratégia explícita e sistemática: uma ferramenta para a mudança das estruturas, uma plataforma de realização dos valores para a convivência social e não somente dos interesses particulares; um instrumento de formação de consensos básicos que tornem possível outro equilíbrio de poder na sociedade, abrindo novos canais de acesso e de participação da cidadania.

O diálogo tende a configurar-se como um espaço de contenção, um âmbito gerador de novos significados compartilhados, sobre a base de uma pluralidade de idéias e crenças, entre todos os atores sociais. É indispensável reconhecer a problemática que se delineia a partir das novas realidades e condições sociais da sociedade globalizada, enquanto determinantes da marginalização e da exclusão, interferindo nas possibilidades para a realização de uma cidadania plena. Neste cenário, somos desafiados em nossa disponibilidade para o diálogo – e em seu potencial de transformação, em seu caráter de gerador de racionalidade e organizador de consensos na sociedade.

Os processos de transição e construção democrática dão testemunho da competência do diálogo para facilitar os consensos mínimos – que tornam possível a tomada de decisões com reconhecimento de legitimidade. O diálogo sobre a crise da violência não poderá ignorar a realidade do poder nem seus modos de distribuições na sociedade – que, por sua vez, deverá explicitar nas suas conversas a realidade dos conflitos e as condições que determinam sua formação, revelando a oposição de interesses e valores, visualizando a dinâmica social consciente de que esse cenário é concebido como um sistema complexo de equilíbrio instável, promovendo condições para incrementar os níveis de confiança entre os atores sociais, garantindo um clima de confiança e crenças renovadas.


- Postado por: Santista às 07h57 AM
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Exclusão à francesa
    
 


A França, considerada o oásis da tolerância, onde convivem africanos, muçulmanos e gente do mundo todo, que contribui para o sucesso econômico da Europa do pós-guerra, mostra-se agora incapaz de assegurar condições de vida digna para jovens descendentes de imigrantes. O racismo, do qual eles reclamam, não é como nos EUA – explícito e segregacionista –, mas um preconceito de classe, como acontece no Brasil, espelho do sistema indiano de castas, que não permite a mobilidade social.

A impotência social do país que inventou os direitos humanos não é de hoje. Dos 60 milhões de habitantes franceses, 7 milhões são imigrantes ou descendentes de africanos, e o plano de renovação urbana, anunciado agora para conter os distúrbios, é esperado há 25 anos e fora lançado há 18 meses. Não saiu do papel. Se tivesse sido colocado em prática, evitaria a maior crise social e política do país nos últimos anos.

O levante dos jovens do subúrbio, da “escória” – de acordo com declaração infeliz do ministro do Interior, Nicolas Sarkozy – tem saldo de quase 6 mil carros incendiados, dezenas de estabelecimentos destruídos e um homem de 61 anos morto por espancamento. O estopim da ira foi aceso pela morte de dois jovens de origem africana, eletrocutados numa estação de transmissão elétrica, enquanto fugiam da polícia para não serem interrogados. Do subúrbio, os distúrbios – forma cautelosa que o governo encontrou para classificar a revolta – se espalharam pela França e agora contaminam os vizinhos Bélgica e Alemanha. Este último, aliás, onde não raro surgem notícias de perseguições e assassinatos de imigrantes da Ásia Central, promovidos por grupos neonazistas.

A Europa é freqüentemente assombrada pelo fantasma do fascismo, o que preocupa o mundo todo. A Itália atual convive com um governo Berlusconi de traços fundamentalistas a proclamar a supremacia da civilização ocidental. Na Holanda, a extrema direita caminhava seguramente para o poder quando o processo foi interrompido pelo assassinato brutal do líder xenófobo Pim Fortuyn, a nove dias das eleições. Ironia ou vingança, Fortuyn era homossexual assumido.

O ápice das tentações ultradireitistas no Velho Continente aconteceu em 2000, na Áustria, com a ascensão do Partido da Liberdade. Num gesto inédito, todos os países da União Européia congelaram relações com a nação austríaca forçando a renúncia do neonazista Jörg Haider. A França não está imune a esta recorrente tendência fascista. Recordemos a ampla coalizão entre a direita francesa, comunistas, socialistas e verdes, não para eleger Jacques Chirac, e sim derrotar o então candidato da Frente Nacional e líder extremista Jean-Marie Le Pen.

O conflito suburbano na França expõe, portanto, grave contradição no país da liberdade, igualdade e fraternidade. Ao mesmo tempo em que se une para banir o fascismo, é impotente quanto à capacidade de oferecer as mesmas oportunidades aos jovens descendentes de imigrantes. Seus pais acorreram à nação esfacelada economicamente pela guerra e, com sua força de trabalho, ajudaram a reerguer e recolocar a França na condição de potência mundial. Passados 50 anos, contudo, continuam a viver do subemprego e do comércio informal, e ocupam áreas da periferia de grandes cidades, onde o índice de desemprego chega a 40%, três vezes superior à média nacional.

Os envolvidos nos distúrbios, entre eles 1.100 detidos em 12 noites, são, na maioria, imigrantes com origem na África islâmica, com idade entre 14 e 25 anos, têm problemas escolares e passagem pela polícia. E por mais que a polícia reprima e prenda, a violência continua, o que faz o governo pensar que há um grupo organizado por trás do levante. Pode ser precipitado o julgamento das autoridades. Os conflitos assemelham-se mais a uma convulsão social estimulada pelo rancor de duas gerações de excluídos dos benefícios do desenvolvimento econômico, que encontraram no terrorismo social o seu modo de protesto.

E se o medo do terrorismo fundamentalista islâmico não conseguiu destruir a postura pacifista e tolerante do presidente francês Jacques Chirac, a situação atual pode mudar sua forma de atuação. O resultado será, a médio prazo, restrições na entrada de imigrantes, a exemplo do que acontece na Inglaterra. E para os imigrantes que vivem lá, a repressão de agora pode traduzir-se numa insustentabilidade de convivência. O diálogo entre os jovens manifestantes e o governo já foi abandonado porque a insatisfação revelou-se muito maior do que o exposto num conflito localizado nos arredores de Paris.

A repressão tem sido a única saída para o governo pacificar a revolta, aumentando ressentimentos e confrontando amplas parcelas da população. Não será surpresa se Le Pen ressurgir como o homem que vá “devolver a França aos franceses”.


- Postado por: Santista às 07h56 AM
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Sandro Mabel chorou novamente
    
 


No primeiro dia de novembro, o Brasil e Goiás assistiram, via TV Câmara, a leitura do relatório do deputado Raimundo Lira, na representação feita pelo PTB nacional em desfavor do deputado goiano Sandro Mabel. É, sem dúvida, um espetáculo bizarro ver deputados como Edmar Pereira (MG), Nelson Trad (MT), Mendes Tame (SP), Chico Alencar (PSOL-RJ), para não citar tantos outros que compõem aquele conselho, posarem de vestais, pensando que estão enganando o nosso cidadão. Ledo engano. Os membros daquele colegiado deviam se lembrar de um colega deles (não me recordo agora o nome, mas isso não importa), que certa vez disse: “Todos que tão são, mas nem todos que são tão”, citação apropriada para o momento que vivemos.

Mas vamos ao que interessa a nós, goianos, ou seja: por que o presidente do PL de Goiás, Sandro Mabel, estava na condição de julgado naquele dia? Tudo começou com o destempero do mau-caráter Roberto Jefferson, que, ao ver seus interesses contrariados e uma denúncia de corrupção nos Correios, resolveu acusar um suposto pagamento de mesada a parlamentares, denominado por ele de “mensalão”.

Não se sabe por que e por quantas, o governador de Goiás, tão esperto, resolveu meter a colher de pau no assunto declarando que mais de um ano antes havia comunicado o fato ao presidente Lula, e que o mesmo não tomara nenhuma providência, deixando tudo como dantes na terra de abrantes. Marconi falou e viajou para a Europa, levando, na sua comitiva, a deputada Raquel Teixeira (que teria recebido a oferta de Mabel), e deixando aqui o seu fiel escudeiro, Carlos Alberto Leréia. Foi Leréia quem, não se sabe por que ou se bem mandado, resolveu revelar que fora Mabel que havia tentado comprar a deputada Raquel.

Raquel, por seu lado, a princípio negou tudo, tentou desconversar, mas, ao retornar ao Brasil, deixou rapidinho a sua secretaria (de Ciência e Tecnologia) e tratou de reassumir suas funções na Câmara, ao perceber que havia entrado em uma roubada que poderia custar-lhe o mandato. De volta à Câmara, e na condição de testemunha, Raquel então confirmou a fantasiosa história de Leréia e de Marconi. Pronto. Surgiu aí um motivo mais do que suficiente para o conselho poder cassar o mandato do presidente do PL goiano, para alegria de seus desafetos e dos sanguinários e “éticos” de plantão.

Decorridos 150 dias, porém, o que se viu foi outra história, com a aprovação do relatório de Lira por 14 votos a 0. Mabel deu a sua versão, Marconi não foi ao Conselho dar o seu depoimento (usou de suas prerrogativas e mandou um depoimento escrito, no qual confirmava a história de Sandro) e Leréia, ao depor, fez o mesmo que o seu chefe: confirmou o que o deputado liberal vinha afirmando. Além disso, na acareação com Raquel, Mabel foi mais convincente e conquistou no mínimo o benefício da dúvida junto aos conselheiros. Assim, se safou. Resta agora o plenário da Câmara, mas lá são outros 257 votos contra para cassá-lo, para a tristeza daqueles que torciam (e ainda torcem) por sua cassação.

Mas essa é uma parte de uma história em curso. Vamos à outra. Mabel chorou, se emocionou, mostrou a todos nós que é emotivo, humano. Mas o povo de Goiás, certamente, estará de olho nele, nas suas ações futuras, quer como parlamentar, quer como presidente do PL. Estará atento para ver se ele dará uma de mulher de malandro, que gosta de apanhar. Em outras palavras, vai querer saber se ele aceitará sentar-se à mesa com seus algozes do PTB e do PSDB, como tem feito até agora.

Quando saiu do PMDB, Mabel disse que o fez por falta de espaço no partido. À época, isso era compreensível, pois ele estava sem mandato, era um empresário bem-sucedido, queria ter vôo próprio. Foi então para o PFL, onde conseguiu uma votação expressiva para a Câmara. Novamente alegando falta de espaço, Mabel rumou para o PL, onde virou líder nacional da legenda. Com tal histórico, ele não pode agora curvar-se às circunstâncias e favorecer os seus carrascos. É piada falar em aliança do PL com PTB e PSDB.

Se Mabel continuar sentando-se, para conversar, principalmente com o PTB goiano – cujo presidente em Goiás, Jovair Arantes, em nenhum momento lhe foi solidário, assim como qualquer dos membros petebistas goianos –, passará a imagem ao povo de seu Estado, aos seus eleitores em especial (e olhe que não sou um deles), de que suas lágrimas, longe de serem de vergonha, de revolta e de indignação com a situação na qual o colocaram, são lágrimas de crocodilo. Passará ainda a imagem de alguém que não merece o respeito não só do povo e de seus eleitores, mas também de seus familiares e de seus amigos, e que estavam certos aqueles que queriam vê-lo fora da política do Estado.

Longe de querer dar conselho ao referido deputado, arrisco-me a dizer que, se realmente ele tem as qualidades que se atribuiu no momento de sua defesa no Conselho de Ética, reflita bem na hora de dar os próximos passos na sua carreira política, para que o povo não se sinta mais uma vez enganado por um de seus representantes. Nada de usar da falácia de que política é assim mesmo, a todo instante muda tudo, ou de que você é cristão e sabe perdoar. Se agir assim, insisto, será o povo, em sua maioria igualmente cristão, que não o perdoará.



- Postado por: Santista às 08h29 AM
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Um beijo na hipocrisia
    
 


A socialite teme que o marido fique pobre e ela perca seu luxo, suas compras em Miami, as jóias. A solução é comprar revistas de coluna social para listar os bons partidos disponíveis para o próximo golpe. A amiga não pode entrar em uma loja que, involuntariamente, coloca sua mãozinha delicada em algum produto em exposição e sorrateiramente o coloca no bolso, uma cena singela. O marido desta, por sua vez, tem um caso com sua advogada, a quem engana falando de uma separação que nunca aconteceria.

Enquanto isso, uma recatada evangélica se esfrega em um desconhecido no banco do ‘busão’ e lhe mostra a cinta-liga vermelha, escondida pelo comprido vestido sem decotes. Os dois saem do ônibus e vão fazer sabe lá o quê. A sogra, uma fofoqueira de mão-cheia, não se arrepende de ter feito uma carta anônima enviada ao próprio filho, anunciando a traição de sua noiva. A informação é falsa. O objetivo é unir seu queridinho com a moça da cinta-liga. A nora que toda sogra pediu a Deus. Tudo isso se passa na Cidade Maravilhosa.

No interior de São Paulo, três “breteiras” se insinuam e se oferecem explicitamente a qualquer um que tenha algo abaixo da fivela. Junto a elas, um rapazinho meio esquisito. Sua mãe aproveita a casa vazia e, escondida, namora um peão bem mais novo que ela, inspiração constante das breteiras em suas noites solitárias.

A protagonista tenta, mais uma vez, infringir a lei e entrar clandestinamente na América.

– Esta novela é ótima.

– Pois é, e olhe que ela começou bem fraquinha.

– A autora é muito boa, parece que ela lê o que a gente quer assistir.

– E esse Júnior, será que não vai se resolver não? Acho que ele deveria virar homem no último capítulo.

– Não está sabendo? Vai beijar na boca do Zeca. Li na revista, você acredita?

– Será? Acho que a Globo não vão ter coragem não.

– Você que pensa. A cena já foi até gravada.

– Que falta de vergonha, né? Deveria ter alguma coisa para controlar o que passa na televisão. Imagina só, dois homens se beijando.

– Pois é, lá em casa, não vou deixar o Cleverson e a Jenifer assistirem o último capítulo não.

– Você faz muito bem. Se é que vão ter coragem mesmo de colocar essa aberração no ar.

– Só vendo para saber.

– Vamos esperar, né?


- Postado por: Santista às 08h24 AM
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Lula e os boiotas
    
 


Eram os últimos anos da ditadura militar, mas o governo de Ary Valadão enfrentava robusta oposição na Assembléia Legislativa de Goiás. O deputado estadual Derval de Paiva (MDB) era um dos seus principais críticos. Um dia, num discurso mais inflamado, chamou o governador de “boiota”. E explicou: “Para os senhores que não sabem, boiota é mistura de boi com idiota”. Editor de Política do Diário da Manhã, Marco Antônio da Silva Lemos estampou na primeira página o neologismo: “Derval chama Ary de boiota”.

Eram tempos de contestação. Derval exprimia a indignação a um governo imposto. A ditadura, que fora implacável em Goiás cassando um governador (Mauro Borges), o prefeito da capital (Iris Rezende) dois senadores (Juscelino Kubitschek e Pedro Ludovico) e eliminando fisicamente opositores, como o deputado José Porfírio, estava engasgado a muito na goela da oposição.

Nos tempos atuais, as incontinências verbais não se justificam. O país vive um regime democrático pleno. Jornais, rádios, revistas e TVs veiculam o que querem. Inclusive delírios da Veja como os dólares de Fidel a Lula.

Não se entende, portanto, manifestações como as do líder da oposição no Senado, Arthur Virgílio (PSDB), que promete “surrar” Lula por conta de supostas ameaças a sua família. Especialistas em grampos, os pefelistas ACM Véio e ACM Jr. estão provando do próprio veneno. Depois de grampear todo mundo na Bahia – que o diga o deputado Geddel Vieira Lima (PMDB) – reclamam que estão sendo grampeados. “Juninho Malvadeza”, que também ameaça meter a mão em Lula, não explica o relatório do conselheiro Pedro Lino, do TCE-BA, que aponta esquema de caixa dois de R$ 101 milhões na Bahiatursa. Até mesmo a telúrica senadora Heloísa Helena (Psol) ameaça esbofetear o presidente, enquanto sua colega, a deputada-juíza Denise Frossard (PPS), defende um "tapa político".

O Parlamento foi criado para ser a casa do diálogo. Noutros tempos, o Coliseu era o local destinado aos adversários. Muita coisa mudou, mas, infelizmente, muitos políticos ainda estão impregnados com a catinga do coronelismo. Por isto é explicável a atitude dos brigões. Virgílio é de família tradicional na política amazonense. Heloísa foi eleita com o dinheiro dos usineiros alagoanos, Denise está irritada com a Reforma do Judiciário e o fim das mamatas. Os ACMS dispensam apresentações.

Em tempos de aftosa, não faz mal nenhum vacinar os nobres pares. Afinal, pelas suas atitudes, eles demonstram que são todos boiotas. Percebe-se pela baba a escorrer-lhes pelos beiços.


- Postado por: Santista às 09h39 AM
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As lágrimas de um companheiro
    
 


Delúbio chorou. Ele chorou mesmo. Chorou porque tem sentimento, tem alma.

Delúbio Soares chorou para não fazer como muitos fizeram nas décadas de 60 e 70, que, dizendo-se de esquerda, simplesmente se escondiam dos familiares dos que iam presos ou tombavam nas linhas de frente contra a Ditadura Militar de 64.

Delúbio – que desde a primeira declaração de Roberto Jefferson (é ele mesmo, aquele da tropa collorida de Fernando Collor) foi chamado diversas vezes para depor e sofreu assédio intenso da imprensa – manteve até então no rosto não um certo sorriso, mas o seu sorriso. Sorriso de quem tem vergonha na cara, sorriso de lealdade, de companheirismo, de quem teve berço sólido em um lar humilde. Delúbio Soares sorria para não xingar aqueles que, até poucos dias atrás, o bajulavam, faltando pouco lamber os seus sapatos bem engraxados, mas que de repente começaram a lhe atirar pedras.

Quando da sua expulsão no sábado, dia 22, no momento em que se defendia no Diretório Nacional do PT, ele foi às lágrimas, sim. Eram lágrimas de um homem que se via diante de um tribunal composto em sua maioria por pessoas que o tinham procurado muitas vezes em desespero, e às quais ele, também muitas vezes, havia estendido as mãos, mas que agora estavam ali para implacavelmente ouvi-lo pedir clemência – clemência, vejam só, por atos praticados em benefício deles, pura e tão somente para ajudá-los. Eis aí a mais fina ironia de uma peça tão estranhamente escrita pelo sopro democrático que estamos vivendo.

Delúbio chorou. Chorou para não ter que seguir os conselhos daqueles que outrora se diziam enojados com comportamentos como o do ‘senhor’ Roberto Jefferson, que, se algum bem fez ao País com a sua delação que quisera ser premiada, foi deixar o seu processo ir em frente no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, que recomendou ao plenário a sua cassação. Os fatos, até aqui, demonstram não ser Delúbio um corrupto. Ele é apenas um dos filhos de um casal humilde de Buriti Alegre, que, forjado na luta e convicto de seus ideais, jamais se orientará por aqueles que, para aparecer, indicam caminhos, propõem encaminhamentos que nunca serão os que o Brasil precisa. E falar agora em reforma política é o mesmo que brincar com a inteligência do povo brasileiro, diante das três CPIs em andamento e do punhado de medidas provisórias a todo momento trancando a pauta de votações no Congresso. Isso sem falar nos outros tantos assuntos de maior relevância que precisam ser apreciados e votados. Ora, para se fazer uma reforma política, é preciso mudar a Constituição, o que significa necessidade de dois terços dos votos do Congresso.

Fazer ilação sobre a compra de um carro e de uma fazendinha, isso então ‘é muita sacanagem’ – como se diz por aí –, para não dizer covardia, de alguém que não conhece os pais de Delúbio. É em momentos como este que se conhece aqueles que gostam de tirar proveito da desgraça alheia. Quanto a outra ilação, a de que está passando da hora de o governo de Goiás, via Secretaria Estadual de Educação, lotá-lo em uma sala de Matemática, não sei bem se é isso o que Delúbio quer ou precisa. Mas que é chegado o momento de o governador dar um basta nisso e mandar o seu delegado parar com esse inquérito idiota, disso, sim, não tenho dúvida, e está passando da hora de ser feito.

Também o governador precisa fazer gestões junto ao Ministério Público para que o senhor Fernando Krebs procure outro assunto para dar vazão à sua saga sanguinária. Pois, em sã consciência, querer fazer o povo acreditar que salário de professor recebido, como ele diz, indevidamente promove enriquecimento ilícito é no mínimo uma piada. E o governador já reconheceu os relevantes esforços do professor no governo Lula para trazer recursos para Goiás.

O que se deve observar agora, no que se refere a Delúbio Soares, não é se ele cometeu ilícitos, uma vez que isso já está sendo apurado pelas CPIs, pela Polícia Federal e pelo Ministério Público, que fatalmente vão chegar a uma conclusão e propor as punições cabíveis. Que ele siga com o seu calvário. O importante é que, dessa crise ora instalada, sejam tiradas lições necessárias para que possamos ter propostas de avanços em nossa ainda incipiente democracia, pois isso nos ajudará a cobrar do novo Congresso e do novo governo que serão eleitos no ano que vem a implementação das reformas necessárias para o desenvolvimento do País.

Os brasileiros estão cansados de saber que, com as CPIs e o Orçamento 2005 a ser aprovado, nada mais será votado no Congresso. Portanto, chega de conversa fiada e de falácias.


- Postado por: Santista às 11h09 AM
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2005: o ano que precisa terminar
    
 


Pendure figa no pescoço. Mas sem esquecer da ferradura atrás da porta. Aproveite a invasão da onda Power Flower no verão 2006 para encher os longos colares hippies de balangandãs. Neste ano não é preciso sair da moda para conseguir usar amuleto contra possíveis desgraças. Não importa o tipo. Vale qualquer coisa contra inveja, mau olhado e outras urucubacas – sem referência ao nobre presidente – para receber de maneira pouco mais segura aos dias sombrios que começam oficialmente amanhã. Embora nos ronde há tempos.

Se 1968 perpetuou-se como o ano que não acabou, 2005 está fazendo hora extra. No ano de maldições nos quatro cantos do País é aconselhável se preparar para o pior na passagem de outubro para novembro. Religião à parte, corra para o calendário. Constate e se proteja. Não por caso o Dia de Todos os Santos faz ponte entre o Dia das Bruxas e o Dia de Finados. É uma pista velada. Haja patuá. É reza das “brabas”.

Os que fazem valer a assertiva “yo no creo en brujas pero que ellas hay, ellas hay”, mas acham que proteções contra vudu, mandinga, olho gordo e outras coisitas do gênero são heresias, recorra ao credo-em-cruz. Apele aos santos. De Nossa Senhora Aparecida a Iemanjá. Só não pode abrir mão de uma forcinha do além.

Basta correr os olhos pelos noticiários. A coisa está feia. Nem a economia, salvadora da pátria da ala lulista, que resistiu as máculas do mensalão, ficou imune por muito tempo. Respingou sujeira da mesada, é claro. Nada que olhos menos atentos percebessem. Mas bastou o mês de outubro chegar para apanhar duro no ringue contra a aftosa. A exportação de carne bovina está indo a nocaute.

As bruxas estão soltas desde a última virada do ano. E amanhã devem fazer a festa. A comemoração do Dia das Bruxas terá gostinho especial. Afinal, assombraram muita gente. Há fantasmas rondando por todos os lados. Cicarelli que o diga. A musa nem deve se lembrar da última vez que visitou uma benzedeira. Se bem que, pelo tamanho da urucubaca, nunca deve ter ido a uma. De princesa com direito a castelo real – numa espécie de reprodução da Bela e a Fera sem pagar direitos autorais –, tornou-se a megera. Enquanto Caroline Bittencourt deve ter sacado a aura escura e garantido seus apetrechos. Quem sabe uma figa embaixo do vestido que usou no casamento mais comentado da última década fez a carreira insossa há anos deslanchar. Quem mandou Daniela colocar em xeque as crenças populares? Por falta de um amuleto perdeu seu badalado lugar no mundo fashion para a bela rival.

Nem Eliana Tranchesi escapou de uma visitinha ao Orco – país dos mortos na mitologia grega. Preocupada com o empório de luxo Daslu, não percebeu sinais estranhos no céu. Como tudo em sua vida remete a glamour, não poderia ser diferente. Forças do mau reuniram-se em assembléia e as pedras em seu caminho apresentaram-se em forma de vestidos Dior, bolsas Prada, Maison Saad, ternos Armani. A onda de escândalo chegara de forma luxuosa ao maior símbolo nacional da ostentação. Até Maluf, que “dá nó em pingo d’água” há anos, não sobreviveu ao érebo de 2005. As bruxas devem ter acompanhado o Mais Você. A incrementada no livro de receitas é evidente. Estão superpoderosas.

O papa pop morreu. No lugar aparece a figura nada simpática de Ratzinger. Até o nome já dá arrepios. A suspeita de envolvimento de Ronaldo, Júlio César e Romário com traficantes de drogas foi o mero anúncio de um escândalo maior: a máfia do apito. Putz! A coisa fedeu até para a idolatrada ala do esporte. E continua fedendo muito. A catinga chegou até mesmo na ex-rainha dos baixinhos – e eterna na terra dos hermanos. Também, quem mandou Xuxa não colocar vassourinha atrás da porta para despachar visita mal vinda? Deixou a vontade no palácio rosa, deu no que deu. Mas nem pode reclamar. Talvez os gnomos tenham intercedido para que a imagem em reconstrução junto aos baixinhos não fosse arranhada. Afinal, crianças não se ligam em notícias sobre remessas ilegais para paraísos fiscais.

O pior é que a essa altura, às vésperas do dia 31 de outubro e 1º de novembro; o fedor das poções de bruxaria devem estar se misturando ao odor nada agradável da decomposição dos mortos. Coitado do Lula! É melhor tapar o nariz. O próprio já admitiu que a urucubaca anda solta pelo Planalto. Haja santo para dar uma maõzinha, jogar Bom Ar depois de – se conseguir – limpar tanta sujeira. 

Conselho de amiga. Para os que não tiveram imunidade no nascimento, não têm corpo fechado por crença – ou conta bancária, como os Maluf – é melhor dar chances às crendices populares. Aposte na fé. Seja ela qual for. Na dúvida, é melhor não arriscar.


- Postado por: Santista às 09h23 AM
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Viagem triste
    
 


Esta coisa de ter a Internet aqui dentro de casa, com o mundo à minha disposição em um pequeno escritório, pequeno, mas grande o suficiente para caber um monitor ligado a tudo, extravagantemente a tudo, a ponto de me permitir, caso queira, ficar meses sem necessidade de sair pra qualquer situação. Comer, vestir, serviços, estudar, informações todas, diversões a gosto; diálogos na língua que quiser, inclusive se não tiver domínio de nenhuma não fico sem que seja compreendido ou entenda. Imagino que o náufrago Robson Crusoé, personagem de Daniel Defoe, que marcou nossa infância, fosse nos dias do notebook, não ficaria perdido naquela ilha deserta.

Mas o calor humano é insubstituível. Não precisar sair para obter o que o mundo tem é cômodo, embora jamais substitua o ato de colocar as mãos nas coisas. Ainda mais sendo Santista. Algo sempre vai faltar quando qualquer dos nossos sentidos deixar de perceber as impressões do ambiente. Na Internet sou testemunha da imagem, ao passo que no local participo do fato. Pretendo nunca deixar de usar as duas fontes.

Fiel aos padrões que elegi para acrescentar valores culturais e de conhecimento ao pouco que sei, que me mantenho incontido a procurar saber. Nada melhor que andar para alcançar esse princípio, razão das viagens que faço, quando posso, aqui e fora, como a que fiz aos Estados Unidos da América recentemente, que me deixou de coração partido.

Antes de o furacão Katrina chegar, cheguei a Nova Orleans – semana passada falei dessa emoção neste cantinho – e ouvi, ao realizar um sonho, o jazz na mais pura fonte. De lá, depois de passar por Orlando, fui encontrar o “Fantasma da Ópera”, há anos representado em Nova York.

Foi o suficiente para recordar das “Torres Gêmeas”, que no fatídico 11 de setembro de 2001 o terrorismo pôs abaixo, do qual mirante tive a noção exata do tamanho da cidade que não dorme. Um choque. Não existe maneira capaz de explicar aquele vazio no lugar do World Trade Center. Ficou a sensação de quem atravessou a ponte e ao voltar ela havia desaparecido.

Fotos e filmes nada retratam o clima naquele espaço de Nova York, no chão e no ar, que até hoje pergunta o porquê de sua escolha para ser a vítima de tão brutal vingança.

Viagem triste. É verdade. Mas ninguém teria meio de substituir o sentimento que meus olhos deixaram em mim.



- Postado por: Santista às 06h57 PM
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